Quando comprar é um vício:
O prazer de comprar não tem que ser o fim do mundo. O consumidor do século 21 precisa agir com sabedoria - afinal, já sabemos que ir às compras sem freios é desastroso para as finanças e para o planeta. Pense nisso :
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Creditada no final de novembro, a primeira parcela do décimo-terceiro costuma despertar a consumidora voraz que existe em cada uma de nós. Tanto que, no último trimestre do ano, a Telecheque, serviço de proteção ao crédito, registra um número de consultas 50% maior do que nos meses anteriores.
Só em dezembro, fornece 1,5 milhão de autorizações de crédito para o Brasil inteiro. Ainda assim, há muita inadimplência, sobretudo entre as mulheres, que perfazem 52% dos devedores.
"Isso é mais notado no começo do ano, quando caem os cheques pré-datados das compras de Natal", diz Eliel Vilela, diretor da Telecheque de São Paulo.
Não é difícil se descontrolar. Consumir é quase como respirar - a gente faz sem pensar muito. Veja como age a médica paulista Alexandra Pereira, 40 anos: "Quando gosto de uma blusa, levo pelo menos duas peças de cores diferentes. Se procuro um brinquedo para um amigo das crianças, não é raro sair da loja com cinco: um para o aniversariante e dois para cada um dos meus filhos".
A academia onde faz ginástica fica dentro de um shopping - ótima desculpa para checar regularmente as vitrines. "As vendedoras já me conhecem pelo nome", admite.
Alexandra pode ser um caso extremo, mas traduz um pouco da nossa relação com o consumo. "Em geral, a pessoa não se dá conta de que tudo o que adquire tem um impacto sobre o ambiente, a sociedade, a economia e sobre si mesma", afirma Hélio Mattar, presidente do Instituto Akatu.
A ONG atua desde 2001 procurando desenvolver o que chama de consumidor cidadão, capaz de perceber o alcance desse impacto e a ligação - nem sempre evidente - entre o consumo e a exploração dos recursos do planeta.
QUESTÃO DE EQUILÍBRIO
Desde 2003, o Akatu investiga quanto os brasileiros estão engajados nessa idéia. A pesquisa mais recente foi realizada em 2006. Os entrevistadores ouviram 1.275 pessoas, homens e mulheres entre 18 e 74 anos, de todas as classes sociais, residentes em 11 capitais das cinco regiões do país.
Entre as 80 perguntas do questionário, eles tinham que apontar se adotavam alguns dos 13 comportamentos que são referência em consumo consciente (veja o quadro).
Um terço dos entrevistados informou que já praticava no mínimo oito das condutas, entre elas planejar a compra de alimentos e de roupas. Mas o estudo mede também consumos dos quais nem nos dávamos conta até recentemente - como o de água.
A estudante Edirlaine Reis, 25 anos, de São Paulo, faz parte do grupo consciente. Ela não sai de casa sem a sua canequinha de plástico para matar a sede. Assim, evita usar copos descartáveis - ou seja, produzir lixo -, como costuma informar a quem acha estranho vê-la tirar a canequinha da mochila.
"Não me incomodo de explicar. É uma forma de educar dando o exemplo", conta Edirlaine. Ela também leva a própria sacola para carregar as compras do supermercado e, lá, escolhe os produtos que têm o mínimo de embalagem possível - passa longe de carnes e frutas acondicionadas em bandejas de isopor.
"Compro de acordo com minhas necessidades. Se levo para casa um jeans novo, já me preparo para tirar um velho do armário e doar, pois sei que não vou mais usá-lo", revela a estudante.
Como se vê, não é preciso fazer um boicote radical às compras. Até porque a economia dos países vive do equilíbrio entre a produção e o consumo, o que gera emprego e impostos para o investimento público em serviços que garantem o bem-estar da comunidade.
A questão é que, dependendo do comportamento adotado, o consumidor pode ajudar a manter essa balança estável ou não. O consumo excessivo prejudica duplamente o planeta.
Por um lado, porque não dá para produzir sem usar recursos naturais. A indústria gasta com energia, água, embalagens, transportes.
Por outro, o consumo desenfreado aumenta o lixo e sacrifica os rios e os mares com dejetos. O consumo irresponsável pode interferir até nas políticas públicas.
"Os municípios gastam entre 10 e 20% de seus recursos para recolher e dar um destino ao lixo. Ou seja, sobra menos no orçamento para investir em educação, saúde e segurança", diz Hélio Mattar.
As pessoas estão gastando mais energia elétrica? O governo decide que precisa construir numa nova hidrelétrica e também redireciona recursos que poderiam ser empregados em investimentos sociais. Resumindo, formamos uma cadeia: nosso movimento tem repercussão na comunidade e no planeta.
ESSÊNCIA E EXCESSO
Para manter a nave-mãe Terra numa rota sustentável, temos que desligar o piloto automático na hora da compra. Primeira lição: a lógica do consumidor responsável segue a máxima dos quatro erres: Repensar, Reduzir, Reutilizar e Reciclar.
Este último é o que está mais disseminado, mas deve ficar no fim da fila. "De certa forma, reciclar deixa uma brecha para o desperdício. Passa a idéia de que posso extrapolar um pouquinho porque depois dá para remediar reciclando", explica a bióloga Patrícia Blauth, diretora da consultoria Menos Lixo, em São Paulo.
Reciclar é importante, claro, mas tem um custo, pois exige investimento em tecnologia e energia. Quando uma garrafa de plástico volta para a indústria para ser transformada em outra coisa, também são empregados recursos naturais.
"Em muitos casos, é melhor optar por uma garrafa retornável, que pode ser reutilizada 50 vezes em média sem precisar passar por um processo industrial de transformação", diz Patrícia. Portanto, é mais econômico trabalhar nas três condutas anteriores para reduzir o volume de lixo.
Repensando o nosso estilo de vida, podemos identificar o que é essencial e o que é excesso e pode ser cortado. "Temos necessidades físicas e emocionais.
Para satisfazer a primeira, talvez dois pares de sapatos sejam suficientes. No nível emocional, porém, preciso de um sapato que combine com o terninho, outro com o vestido, mais um para a festa e por aí vai", observa a engenheira ambiental paulista Eliane Sampaio.
Ao repensar nossa relação com o consumo, temos que encontrar o equilíbrio entre essas duas vertentes a fim de reduzir nossa cota. Na era do descartável, reutilizar qualquer coisa ou simplesmente continuar com ela até o fim de sua vida útil parece bobagem.
Mas não é: representa economia para o seu bolso e um item a menos na sua lata de lixo. "O tempo médio de troca de celulares no Brasil é de 15 a 16 meses", diz Mattar. Mas será que o modelo novo é imprescindível ou você poderia usar o antigo por mais tempo?
SELOS DE QUALIDADE
Além de quantidade, tente avaliar também a qualidade de suas compras, o que significa levar para casa produtos que foram produzidos sem agredir o meio ambiente - ou seja, sem poluir o ar ou a água e sem desmatar.
Uma forma de se guiar nessa busca é procurar itens com selos de qualidade, sociais ou verdes - como o da Abrinq, dos alimentos orgânicos ou dos eletrônicos com baixo consumo de energia elétrica.
Outro caminho é verificar se eles foram produzidos por empresas comprometidas com a sustentabilidade. Mas como saber? Verificando se ela trata seus empregados de maneira justa e oferece benefícios como plano de saúde, se possui alguma certificação ambiental da família ISO 14.000, se investe em algum projeto de responsabilidade socioambiental", explica Mattar.
São informações que podemos conseguir no site do fabricante ou consultando o serviço de atendimento ao consumidor (SAC). No site do Akatu (www.akatu.net), há uma lista com empresas e produtos que cumprem bem seu papel ambiental.
VOCÊ É UM CONSUMIDOR CONSCIENTE? Assinale quais dos 13 comportamentos abaixo você adota no dia-a-dia 1 Evita deixar lâmpadas acesas em ambientes desocupados. 2 Fecha a torneira enquanto escova os dentes. 3 Desliga aparelhos eletrônicos quando não está usando. 4 Costuma planejar a compra de alimentos. 5 Costuma pedir nota fiscal quando faz compras. 6 Costuma planejar a compra de roupas. 7 Costuma usar o verso de folhas de papel já utilizadas. 8 Lê o rótulo atentamente antes de decidir a compra. 9 A família separa o lixo para reciclagem. 10 Espera os alimentos esfriarem antes de guardar na geladeira. 11 Comprou produtos feitos com material reciclado nos últimos seis meses. 12 Comprou produtos orgânicos nos últimos seis meses. 13 Procura passar ao maior número possível de pessoas informações sobre as empresas e os produtos.
Agora conte quantas condutas assinalou e veja em que estágio você está: Indiferente Reproduz no máximo dois comportamentos. Iniciante De três a sete. Engajada De oito a dez. Consciente De 11 a 13.
FONTE INSTITUTO AKATU
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